PARABÉNS A TODOS OS PROFESSORES!!!
HOJE É DIA DE GEOGRAFIA
Quarto filho de uma família de seis irmãos, eu vivia descalço e encardido pela lama da rua. Só na hora da escola é que ficava limpo. Sabonete só em dia de festa e como isso era raro em cidade pequena, eu ia à escola todos os dias com o cabelo engomado e cheirando a sabão feito pela minha avó no fundo do quintal. “Pronto, tá com cara de gente de novo”, dizia minha mãe quando terminava de me arrumar. Ainda bem que como eu, outros tantos compareciam à aula com o mesmo aroma.
Uma vez, cheguei escola um pouco mais tarde. Caí no caminho e voltei para me trocar. Dona Cássia, nossa professora, sempre falava da limpeza . Dizia que água e sabão todo mundo tem e isso era verdade. Eu acho que ela dizia essas coisas por causa do Torresmo. O pai dele tinha um bar e o garoto quase sempre chegava cheirando a gordura de porco porque ajudava a mãe a fazer as frituras. Misturado à falta de banho o cheiro não era nada agradável. Engraçado é que o óleo que untava o Torresmo era o mesmo usado pela minha avó para fazer os sabões que eu usava para tomar banho.
Naquele dia não foi o cheiro do Torresmo que predominava no ar. Já no corredor, antes de entrar para sala, senti um aroma mais doce. Hoje sei que era lavanda, mas naquela época nem sabia que isso existia. Entrei na sala e lá estava a nova professora. Onde estaria a dona Cássia? Estudo com ela desde a primeira série e agora já estou na metade da segunda, quem é essa que apareceu de repente na aula? Estava mostrando às crianças, no mapa meio encardido que tinha no canto da sala, a cidade de onde vinha. “Cidade grande fessora” gritava lá do fundo o Tiago Mosca, era esse o nome dele e por isso, de vez em quando o chamávamos de Zum Zum, principalmente quando começava a perturbar com seus comentários óbvios.
É claro que era grande. A nova professora veio de São Paulo, dona Cássia já tinha contado que era um lugar muito grande. Contava lá do jeito dela, pois nunca tinha saído daquele fim de mundo onde morávamos. Explicava a respeito das ruas, a altura dos prédios, a quantidade dos carros, a poluição, as fábricas. Pesquisava nos livros velhos que tinha lá na sala da diretora. De vez em quando recebia cartas de uma irmã que também mandava fotos mostrando as belezas da cidade grande. Colocava tudo numa caixa e trazia para a sala para que pudéssemos apreciar. Entrava e dizia: “Crianças, hoje é dia de Geografia”. Afastávamos as mesas para ganhar espaço, fazíamos uma roda e tudo era colocado ali no chão para que pudéssemos aprender geografia. Fazíamos desenhos comparando a nossa cidade com a cidade grande e maquetes também. Olhávamos nas fotos das revistas que o avô da Cris mandava para escola. Ele era jornaleiro e informante das novidades do lugarejo.
Labirintite, ouvi alguém comentando. Precisou tirar licença . Eu não sabia o que era mas devia ser algo grave, para tirar dona Cássia das aulas. Satisfeita a minha curiosidade a respeito da ausência da professora, agora era me acostumar com a nova. Bonita e mais jovem, despertava os suspiros dos colegas das outras salas. Os garotos mais velhos estavam sempre arranjando desculpas para chegar perto dela, nem a bolsa ela carregava. Coitada da dona Cássia, vivia cheia de tralhas pelo corredor e não aparecia nenhum cristão para ajudá-la, a menos que ela pedisse. Meu irmão de quinze anos passou a se interessar em ir às reuniões. Dizia que a mamãe estava cansada demais e que ele podia resolver meus assuntos escolares. Ia pelo caminho, dizendo: “Vou lá ver tua professora cheirosa da cidade grande e vê se não me envergonha moleque, se tiver nota baixa te dou uns cascudos.” Pensava eu, dentro de minha calça curta: “E quem soca você, seu burro? Já está três anos na mesma série, se tua professora fosse bonita dava até para entender, mas é feia que dói e tem cheiro de sopa.Você só tira argolas na sua prova.” Como só podia pensar, seguia pelo caminho ouvindo as bobagens de meu irmão apenas abanando a cabeça. Às vezes tomava um tapa: “Fala alguma coisa moleque, parece que é mudo.”
O tempo foi passando e nada de dona Cássia voltar. Fui me acostumando ao jeito da dona Mariana. Sempre trazia novidades para a aula e contava como era viver em outra cidade. Tinha muitas fotos e livros novinhos. Um dia falou para a turma: “Vou tentar agendar uma excursão para que vocês possam ver de perto como é São Paulo. Vamos ao teatro Municipal e conhecer um pouco da cidade da cidade grande.”
Fiquei eufórico, seria mesmo muito legal poder conhecer a Praça da Sé, a Avenida Paulista e aquele troço enorme, que a Dona Cássia disse que chamavam de Minhocão. Eu não tinha mesmo noção do tamanho da cidade de São Paulo.
A excursão nunca aconteceu. Nossa escola era carente e nossas famílias muito mais. Bem que dona Mariana se esforçou para que pudéssemos ver uma parte da grande cidade. Mas não houve jeito, ninguém cedeu um ônibus e tivemos mesmo que nos contentar com as fotos e livros. O máximo foram os slides que uma professora amiga da dona Mariana emprestou.
Aprendi muito com essas duas professoras. Uma conhecia muito bem cada cantinho da nossa cidade. Organizava passeios, dizia que os livros não eram suficientes para nos fazer entender o que era um terreno montanhoso e por causa disso fazíamos passeios incríveis para conhecer o que o livro não dava conta de mostrar. A outra tinha a experiência da cidade grande. Falava dos lugares que conhecia com muitos detalhes e fazia o possível para ilustrar as aulas da melhor forma mesmo sabendo que não poderia nos levar aos teatros, cinemas, bibliotecas e museus que conhecia. Entretanto mostrava os folhetos das exposições que visitava e muitos livros com histórias de lugares que nossos olhos poderiam apenas imaginar.
Terminei a segunda série com a dona Mariana. Dona Cássia veio se despedir e fizemos para ela uma festa. Conseguiu se aposentar e nos disse que já havia feito a sua parte. Agora era a vez dos mais jovens.
Cresci com todas aquelas imagens na cabeça. Consegui me formar e hoje moro em São Paulo, perto de um grande parque. Sou professor de geografia e nas horas vagas, organizo excursões, pois aqui onde moro tem gente que só vê montanha e rio limpo em fotos ou pela tv. Nunca viram de perto uma cidade pequena.
MÁRCIA TOITO GARCIA
EM 20/09/2007
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