sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A HONRA PASSADA A LIMPO

Sou compulsiva, eu sei. Limpeza e arrumação. Todos os
dias boto a mesa, tiro a mesa. Café, almoço, jantar. E pilhas
de louça na pia, e espumas redentoras.
Todos os dias entro nos quartos, desfaço camas,
desarrumo berços, lençóis ao alto como velas. Para tudo
arrumar depois, alisando colchas de croché.
Sou caprichosa, eu sei. Desce o pó sobre os móveis. Que
eu colho na flanela. Escurecem-se os pratos. Que eu esfrego
com a camurça. A aranha tece. Que eu enxoto. A traça rói.
Que eu esmago.
O cupim voa. Que eu afogo na água da tigela sob a luz.
E de vassoura em punho gasto tapetes persas.
Sou perseverante, eu sei. À mesa que ponho ninguém
senta. Nas camas que arrumo ninguém dorme. Não há ninguém
nesta casa, vazia há tanto tempo.
Mas, sem tarefas domésticas, como preencher de feminina
honradez a minha vida?


Contos de amor rasgados
Marina Colassanti

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